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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Quase

É que quase não é beijo, nem verdade, nem inteiro! Quase sim é não e no quase abraço permaneci sozinha, eu e a minha vontade de ser, mas sendo quase, um quase amor. No quase dizer me calei e guardei pra mim. No quase viver, morri. Morri engasgada com todas as palavras que quase falei, silêncio.
A noite era bonita, sim, esperava que dissesse não, naquele ato quase heroico de segurar pela cintura e lembrar que eu disse que ficaria ali para sempre. Desisti de esperar e resolvi finalmente ir. Lá pela decima vez já esperava me sentir livre de todas as coisas nas quais desejava mais que tudo me prender, soltei. Esperei o tempo de acordar, quase sonhei, mas os pés, como sempre, imóveis no chão.
Dizer que ama não é, de forma alguma, amar. Não faz acreditar que é verdade e ainda hoje espero o dia que vou acordar e lembrar que tudo isso não passa de sonho, porque na vida real não tem amor tão grande assim, que nada possa destruir. As coisas vem e vão, nunca permanecem porque um dia cansam de ficar, mas quase fui feliz, quase aprendi a amar, infelizmente quase não é beijo, nem verdade, nem inteiro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

um brinde ao amor

Dois corações que se amam por contrato. Aquele velho modo de dizer as coisas, "estarei sempre ao teu lado" e peço que não esteja, que não fique se não tiver vontade de ficar. Não espere de mim mais do que eu posso dar e não me deixe amar mais do que me cabe o amor e, de um jeito tão comum, me cabe porque eu quis que coubesse e insisto em afirmar pra mim mesma que posso tirá-lo daqui no instante em que desejar. E quem me dera controlar um coração.
No mais, continuo aqui, vendo a tragédia acontecer, tão bonita, diante dos meus olhos, pra depois adentrar a noite deixando mais um rastro de silêncio que começa nos meus pés e termina onde eu aprender a amar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

goodbye my lover 5

Andava, dessa vez sem rumo, encontrei moedas no chão e me lembrei de você, me remeteram a sorte.
Andei, assim como andava, no momento em que encontrei aquelas moedas, meio sem palavras, sem esforços, no todo sem ti. Não sou boa em despedidas, não gosto de ser obrigada a sair da vida de quem preenche a minha.
Tenho andado distraída, esses dias tropecei em um canteiro, por pouco não caí em cima das flores coloridas que preenchiam a cidade cinza e lembrei de você.
Outro dia desses vi sangue no chão, demorei quase dez segundos para olhar para trás e me passaram mil coisas na cabeça, quem sabe tivesse tropeçado em um corpo estirado no asfalto e nem se quer percebi, porque ando assim, tropeçando em tudo, não vendo nada, esquecendo da vida, lembrando o passado, e lembrei você.
Na segunda feira acordei, mas esqueci de levantar, esqueci um pouco de viver e achando que estava aproveitando cada segundo, estava na verdade mais pra morta, sendo lembrança, tão vaga, na tua cabeça.
Essa minha distração, essa minha falta de foco é que nos afasta, dizem que opostos se atraem, mas eu, tão distraída, não percebi o quão opostos podíamos ser. E naquele dia, em especial, me esqueci de dizer tudo o que tinha planejado, todas as falas, as vírgulas pela primeira vez em seu lugar certo, e reticências, ao invés do ponto final, mas na hora esqueci. Me distraí enquanto dizia tchau, sem saber que na verdade era um adeus, que acabaria ali, naquele último beijo.
Mas aí você voltou e eu, distraída só pra não perder o costume, segurei na tua mão, como se aquele adeus nunca tivesse existido. Andamos juntos para a praia e sentamos, admirando o mar, sempre no mesmo lugar, mas nunca igual. Eu me distraí, outra vez e não percebi que ali não era o meu lugar, que tu olhava a menina de biquini fio dental na beira do mar e como era de se esperar, me deixou sentada na areia e foi amar o mar, amá-la no mar. Foi só aí que vi o quão burra me fazia parecer, apenas porque era distraída e ai fui por conta própria embora, mas voce me puxou pela cintura. Ainda a um ou dois dias segurava a minha mão. Bem, não são as moedas que me fazem lembrá-lo, nem as flores, é que pra todo lugar que olho surge a lembrança em você, mas dessa vez estou mais atenta, dessa vez não houve nem último beijo, dessa vez foi proposital, é a minha vez de dizer adeus.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O retrato

O casamento entre as flores de um campo enorme, o vestido branco arrastando pela grama, mas o mais bonito não era o vestido, nem o terno, nem o campo, nem as flores. O mais bonito era o sorriso que os noivos traziam no rosto. Sorrisos de felicidade real, talvez até imortal.
Não havia nada que pudesse mudar aquele sentimento, aquele amor, aquela beleza.
Os dois se completavam, gostavam das mesmas coisas, tinham os mesmos sonhos, tirando o vício por pintar do homem.
Em uma manha de frio com sol ele finalmente tomou coragem e pediu. Perguntou a sua mulher se ele poderia fazer um retrato dela. No começo ela não aceitou a ideia, mas sabia o quanto aquilo era importante para ele e enfim concordou.
Sentou-se no sofá logo após o almoço, ficaram lá até de noite e na manha seguinte voltaram para lá. Os dias passavam e já completava uma semana. Ela sabia que estava demorando porque ele queria que ficasse perfeito, que fosse uma pintura exata da perfeição, da realidade, do que ela significava, mas o tempo passava e a cada dia ela ficava mais triste.
Já se passava quase um mes e agora eles nem conversavam mais. Saiam da sala de pintura apenas para comer, ir ao banheiro e dormir, mas já nao trocavam uma palavra.
Um mês e meio e ela já tinha o rosto palido, os lábios secos, os cabelos sem brilho algum e o olhar triste.
Dois meses e ela já estava fraca, tinha um pintor e nao um marido.
Dois meses e 17 dias e só faltavam os detalhes.
Dois meses e 18 dias, o quadro estava pronto. Ele olhava o quadro com emoçao, aquilo era o retrato perfeito e exato de sua amada. Com lágrimas nos olhos levantou-se, emocionado e exclamou: Isso é vida!
Olhou para o sofá e sua esposa estava deitada, palida. O quadro tão real, tão vivo e sua mulher morta.